O Carnaval de 2026 marcará uma das transformações tecnológicas mais profundas na história da Marquês de Sapucaí. A tradicional passarela do samba passará por uma mudança significativa em seu sistema de sonorização, abandonando os antigos carros de som e adotando uma infraestrutura digital de última geração.
Mais do que uma atualização técnica, trata-se de uma reengenharia completa da experiência sonora do maior espetáculo da Terra — um projeto que envolve acústica, telecomunicações, processamento digital de sinais e infraestrutura urbana em larga escala.
Para entender a complexidade desse desafio, conversamos com Daniel Carvalho, aluno de Engenharia Eletrônica e de Computação da Escola Politécnica (Poli/UFRJ) e bolsista de Iniciação Científica no laboratório SMT (Sinal, Multimídia e Telecomunicações) do Programa de Engenharia Elétrica da Coppe/UFRJ.
Um desafio de engenharia em campo aberto
Daniel Carvalho, que traz no currículo atuações com nomes como Caetano Veloso, Marisa Monte, Gal Costa e Roberta Sá — além da experiência atual na regulagem de som da turnê Tempo Rei, de Gilberto Gil — destaca que a Sapucaí é um dos cenários mais desafiadores do país para projetos de sonorização.
“Há especificidades na avenida que fogem à zona de conforto. A avenida é longa e estreita, o que complica o posicionamento e a distribuição dos equipamentos. Além disso, o ambiente de radiofrequência é extremamente ‘poluído’, devido às transmissões simultâneas e aos shows nos camarotes, o que gera interferências na comunicação sem fio.”
Sonorizar a Sapucaí significa projetar para um espaço aberto, com múltiplas fontes de interferência, milhares de pessoas, transmissão ao vivo e exigência de sincronização absoluta — uma operação que demanda planejamento técnico minucioso e testes em condições reais.
O fim da era dos carros de som
A mudança mais emblemática anunciada pela Liesa é a aposentadoria dos carros de som, utilizados desde a inauguração do Sambódromo, em 1984. Historicamente, esses veículos funcionavam como suporte para mesas de som e antenas, ajudando a minimizar interferências para os músicos ao longo da avenida.
No novo modelo, o áudio passa a ser distribuído por uma rede de fibra óptica com processamento digital, garantindo o que os técnicos chamam de “latência zero”.
Na prática, isso significa que o som chegará de forma síncrona do Setor 1 ao Setor 13, com um atraso imperceptível — abaixo de cinco milissegundos — eliminando o chamado “atravessamento” do samba (o descompasso entre bateria e demais músicos causado por atrasos distintos de audição) e o eco que historicamente incomodava integrantes das escolas e o público.
A solução envolve protocolos modernos de áudio sobre IP e arquitetura digital de rede, aproximando o Carnaval carioca dos padrões tecnológicos das grandes arenas internacionais.
Tecnologia wireless e monitoramento “in ear”
A engenharia por trás do novo sistema também substitui o retorno físico dos carros de som por fones de ouvido (in ear) para os intérpretes, permitindo maior mobilidade ao longo da avenida.
Tecnicamente, a inovação está na transição de sistemas de banda estreita (400 MHz) para tecnologia wireless de banda larga (1,4 GHz), com maior capacidade de dados e menor suscetibilidade a interferências.
“A geração mais antiga é muito acostumada com carro de som para ter o retorno. Mas os músicos mais jovens já estão habituados aos fones sem fio e vão se adaptar bem à novidade”, acredita Daniel.
O sistema opera com 32 canais bidirecionais (totalizando 64), utilizando equipamentos robustos como o Spectera, da Sennheiser. Essa banda mais larga e segmentada é fundamental para reduzir a ‘sujeira’ sonora e garantir que a comunicação entre intérpretes e bateria seja cristalina — mesmo em um ambiente de altíssima complexidade eletromagnética.
Inovações na infraestrutura e experiência do público
As melhorias não se restringem aos músicos. A transformação do som da Sapucaí é sustentada por uma série de intervenções estruturais que exigem engenharia integrada.
- Som de Arena
Novos clusters de som e caixas com maior pressão nos agudos foram instalados para garantir cobertura uniforme em arquibancadas, frisas e camarotes. O redesenho do sistema exigiu estudos detalhados de propagação sonora, considerando extensão da avenida, reflexões, dispersão e absorção acústica.
- Intervenções Físicas
A Sapucaí passou por obras para a criação de canaletas subterrâneas, embutindo toda a fiação e eliminando cabos expostos na pista. Embora pouco visível ao público, a mudança envolve planejamento estrutural, redes elétricas de alta confiabilidade e integração entre engenharia civil e sistemas de áudio.
Com o cabeamento subterrâneo, há mais liberdade de circulação para equipes técnicas e para o puxador, que pode se locomover com maior autonomia ao longo da avenida, sem obstáculos ou limitações impostas por fios aparentes. A solução também contribui para a organização visual do espaço, melhora a logística de montagem e desmontagem das estruturas e aumenta a confiabilidade do sistema elétrico, reduzindo a exposição a intempéries e falhas operacionais.
Mais do que uma intervenção física, trata-se de uma reconfiguração da infraestrutura da avenida para sustentar um espetáculo de escala global com padrões tecnológicos elevados.
- Áudio Espacial
Pela primeira vez, a transmissão oficial via streaming utilizará mixagem em áudio espacial (baseado em objetos), permitindo que quem assiste de casa perceba o posicionamento real da bateria ao longo da avenida.
- Testes e Ajustes
O sistema foi testado em 2025 e nos ensaios técnicos da Série Ouro, com o objetivo de proporcionar uma experiência sonora mais limpa, uniforme e sincronizada.
Para o pesquisador do SMT/Coppe, a mudança preserva a busca histórica do Carnaval pela excelência, agora amparada por protocolos modernos de áudio sobre IP e soluções de engenharia que enfrentam problemas clássicos de cancelamento de fase e latência.
O que o público perceberá como um som mais limpo, sincronizado e potente é resultado de camadas invisíveis de engenharia operando com precisão milimétrica.
“Há muito tempo buscam-se soluções para aprimorar a qualidade de som no espetáculo. Há mudanças, mas não uma ruptura, e sim um aprimoramento da experiencia acumulada.. Estou curioso para ver o resultado”, conclui Daniel.
Fonte: Planeta COPPE


